DECADENTISMO

Daniel Augusto Pereira da Silva

O termo “Decadentismo” faz referência a um conjunto de obras literárias com características em comum, tanto em prosa quanto em poesia, que floresceu entre o final do século XIX e as primeiras décadas do XX na Europa e nas Américas. Essa literatura foi também chamada, nos estudos literários, sob os variados nomes de “Decadismo”, “Simbolismo”, “Pós-simbolismo”, “Novismo”, “Nefelibatismo”, “Art nouveau” e “Esteticismo”. Atualmente, as principais correntes críticas admitem que tal literatura não se constituiu em um movimento bem definido ou em uma escola específica. Trata-se mais de uma poética característica do período, que apresentou, sistematicamente, recorrências temáticas, estilísticas e narrativas, além de uma visão de mundo pessimista. Para evitar a instabilidade terminológica e conceitual, fala-se, mais frequentemente, em poética decadente, literatura decadente ou simplesmente decadência.

As origens da decadência, como fenômeno cultural e artístico do final do século XIX, podem ser associadas a uma percepção negativa da modernidade. As incessantes inovações modernas geraram, para parte da intelectualidade europeia, um sentimento de instabilidade e de fragilidade nervosa. As populações do período, com os sentidos hiperestimulados pelas constantes novidades técnicas, teriam experimentado um desgaste na capacidade de percepção, tornando-se progressivamente indiferentes. Para lidarem com essa questão, as artes e as mídias se esforçaram para buscar formas de chocar a recepção a fim de renovar sua capacidade sensível. Apesar da enorme variedade de vivências históricas e culturais que influenciaram a percepção de decadência social em diferentes países, a experiência urbana costuma ser apontada como um dos principais catalisadores da sensação de degradação. Com efeito, as grandes metrópoles revelam tanto as conquistas do progresso técnico-científico quanto o seu lado mais sombrio, como a desigualdade e o crime. Nos contos de João do Rio, por exemplo, especialmente nos de Dentro da noite (1910), a cidade do Rio de Janeiro é o cenário das tramas decadentes. Por vezes, protegidas pelo anonimato e imersas na multidão, as personagens dão vazão aos seus impulsos mais violentos e transgressivos. Nesse contexto, ruas sujas, transportes coletivos vazios, casas de prostituição e salões da alta sociedade passam a constituir um locus horribilis tipicamente urbano. Esse contexto histórico e cultural propiciou o desenvolvimento de uma literatura não apenas pessimista em relação à existência e à sociedade moderna, como também descrente do desenvolvimento científico e da bondade humana. Além dessa visão de mundo negativa, destaca-se, entre os traços gerais da produção artística decadente, a recusa de tudo aquilo que é natural. Nas obras da decadência, as criações artificiais, advindas da capacidade imaginativa dos artistas, são valorizadas em detrimento da natureza, considerada vulgar e essencialmente corrompida. Por meio de objetos excêntricos e supostamente refinados, as personagens decadentes buscam sensações cada vez mais intensas e originais, a fim de vencer o ennui da vida urbana. Não raras vezes, o desejo por novidades tem como resultado a valorização do grotesco, a tal ponto que mesmo as figuras mais disformes são encaradas de forma positiva, como representantes de um paradoxal belo horrível.

A análise tanto das reflexões críticas quanto das produções ficcionais de escritores ligados à decadência revela uma das características mais marcantes dessa literatura: a defesa da inutilidade e da amoralidade da arte. Influenciados pelos postulados de Théophile Gautier e Walter Pater, escritores como Oscar Wilde e Jean Lorrain posicionaram-se contra a ideia de que a literatura deveria cumprir uma função educativa. Pelo contrário, defendem o valor da produção artística pela própria fruição estética, a partir da criação de obras belas e esteticamente relevantes. O esteticismo das personagens, levado ao excesso em enredos voltados para a descrição das monomanias artísticas, é responsável por sua corrupção física e moral, tal qual observamos na novela Morte em Veneza (1912), de Thomas Mann.

Desejosos por viver em um mundo próprio, regido por princípios artísticos e distante do materialismo, dândis e estetas investigam seus universos interiores e subjetividades. Esse é o caso de Des Esseintes, protagonista de Às Avessas (1884), de Joris-Karl Huysmans, obra paradigmática da decadência. Com o auxílio dos entorpecentes mais variados, as personagens decadentes desejam explorar os diversos estados de consciência e, frequentemente, tornam-se obsessivas e paranoicas. Ao enfatizarem o lado onírico da humanidade, tais figuras vivenciam situações insólitas, marcadas pelo fantástico e pelo estranho. Durante pesadelos, momentos de inconsciência ou delírio, entram em contato com fantasmas, espectros macabros e outros tipos de assombração. Os aspectos psicológicos dos protagonistas também ganham destaque em histórias de duplo, nas quais os contos de Edgar Allan Poe costumam ser mencionados como intertexto. São, ainda, frequentes as reinterpretações de mitos e lendas, em textos que inserem os elementos do maravilhoso em estruturas narrativas tipicamente decadentes.

O ocultismo é uma das principais fontes para o imaginário da literatura fantástica decadente, fornecendo temas, tipos de personagens e tramas. Ao afirmarem que haveria um universo formado por elementos invisíveis, capazes de agir sobre as decisões humanas, as correntes ocultistas permitiram um outro olhar sobre o real. Essa possibilidade acarreta a exploração não apenas de criaturas e de seres insólitos, como demônios e fantasmas, mas também do inconsciente humano, cujo funcionamento seria potencialmente imprevisível e surpreendente. Em obras como as de Joséphin Péladan, são recorrentes as figuras de magos e feiticeiros, que tentam influenciar o destino das outras personagens com seus conhecimentos proibidos. A tematização do misticismo deu forma, igualmente, a narrativas sobre satanismo, como Là-bas (1891), de J.-K. Huysmans, e Kyrmah: Sereia do vicio moderno (1924), de Raul de Polillo, em que ocorrem cenas de missas negras – mescladas a orgias – e de sacrifícios em honra a entes diabólicos.

A sondagem da sexualidade humana nas suas mais diversas formas, mas encaradas, frequentemente, de forma condenatória e negativa, é recorrente na literatura decadente. Em diversos textos, associa-se a atividade sexual a doenças variadas, sobretudo as venéreas, que promovem a degeneração corporal das figuras. Tais tramas são, então, caracterizadas tanto pela atração do desejo sexual quanto pela repulsa à decrepitude física. Diversas personagens são descritas como sexualmente ambíguas, entre andróginos, intersexuais ou transexuais, como exemplificam os romances Monsieur Vénus (1884), de Rachilde, e Esfinge (1908), de Coelho Neto. Os desejos homossexuais também estão amplamente presentes nas narrativas fin-de-siècle, entre as quais O retrato de Dorian Gray (1890), de Oscar Wilde, Monsieur de Phocas (1901), de Jean Lorrain, e os contos dos brasileiros Vinício da Veiga, em O Homem sem Máscara (1921), e Carlos de Vasconcelos, em Torturas do desejo (1922). Além disso, ganham bastante destaque as femme fatales, simultaneamente atraentes e sádicas, e, não raras vezes, relacionadas a um imaginário orientalista, como no romance Le Jardin des supplices, de Octave Mirbeau (1899), e no conto “A nevrose da cor” (1903), de Júlia Lopes de Almeida.

A literatura decadente é identificável não apenas pelos seus conteúdos, mas, sobretudo, pela forma como os expressa. Não por acaso, a experimentação linguística foi apontada como um aspecto dominante ao longo das últimas duas décadas do século XIX. Por meio de mudanças em relação às expectativas linguísticas mais correntes, os escritores buscariam formar uma linguagem própria, acessível apenas a um grupo limitado de pessoas, capazes de vencer o hermetismo estilístico. Críticos como Jean de Palacio (2011) identificam um estilo próprio que teria sido empregado pelos autores decadentes. Entre os procedimentos linguísticos, destacam-se a raridade vocabular; a criação de neologismos; a erudição lexical; o destaque a termos de campos semânticos de especialidades; e a opção por inversões sintáticas. Tal linguagem ornamental, associada à écriture artiste e ao impressionismo literário, faz-se evidente, por exemplo, nos contos de Horto de mágoas (1914), de Gonzaga Duque. A reflexão metalinguística e a busca por inovação na estrutura narrativa serão um dos pontos de ligação entre a poética decadente e as vanguardas artísticas do Novecentos.


BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

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