JULIO CORTÁZAR – ficcionista

Ana Lúcia Trevisan

O escritor argentino Julio Cortázar nasceu em Bruxelas em 26 de agosto de 1914, onde seu pai desempenhava funções públicas na delegação comercial da embaixada argentina. O impacto da primeira Guerra Mundial faz com que a família se traslade para a Suíça, logo para Espanha e, por fim, em 1918, conseguem retornar a Buenos Aires. O escritor passou a infância e a juventude em Banfield, localidade ao sul de Buenos Aires, formou-se na área de Letras e atuou como professor de literatura na Faculdade de Letras da Universidad Nacional de Cuyo. Nos anos em que morou na Argentina dedicou-se a tradução e, também, escreveu poemas e ensaios. Em 1951, aos 37 anos, desiludido com a política peronista, mudou-se para Paris, onde estabeleceu residência. Em 12 de fevereiro de 1984, aos 70 anos, o escritor faleceu em Paris.

A publicação dos contos que fazem parte das obras Bestiario (1951) e Final del juego (1956) significam um importante marco da narrativa fantástica hispano-americana, uma vez que revelam um modo narrativo singular, definidor de um estilo que acompanhará grande parte da obra do escritor. Na sua obra de estreia, Bestiario, temos contos fantásticos icônicos como “Casa tomada”, “Circe” e “Cara a uma señorita en Paris”, já em Final del juego, apresentam-se os inesquecíveis “Continuidad de los parques”, “Axolotl” e “La noche boca arriba”.

Em 1959, no volume de contos Las armas secretas, surge o conto “El perseguidor” que consolida o nome de Julio Cortázar nos círculos literários internacionais. Seguem-se, ainda, importantes obras de contos como Historias de cronopios y de famas (1962), Todos los fuegos, el fuego (1966), Octaedro (1974), Alguien que anda por ahí (1977), Queremos tanto a Glenda (1980), Deshoras (1983) e Los autonautas de la cosmopista (1984), escrito com sua mulher Carol Dunlop.

As imagens insólitas construídas nas narrativas de Julio Cortázar propõem ao leitor fascínio e desconforto, uma vez que as estratégias narrativas compõem com precisão os efeitos de realidade e, ao mesmo tempo, constroem a dissolução dos sentidos do real, causado pela intromissão dos eventos insólitos de forma naturalizada. O insólito provoca um mistério latente, no entanto, como o absurdo se naturaliza no âmbito da narrativa, cabe ao leitor o espanto derradeiro, pois, o mundo postulado como real é traiçoeiramente abalado, sem que nenhuma solução seja evocada para aplacar o desconcerto dos personagens e, por conseguinte, dos leitores.

Em seus contos, os personagens são, em sua maioria, sujeitos comuns que estão mergulhados no cotidiano, porém, ao depararem-se com acontecimentos inexplicáveis, não oferecem nenhuma resistência, reagindo de maneira quase submissa. Os espaços descritos nos contos são, em geral, familiares, como a casa, o ônibus, o teatro, um jardim, etc. Nesses espaços do cotidiano acontecem fatos inusitados que causam uma ruptura da realidade. A adoção desses espaços, personagens e temáticas criam um efeito de proximidade inicial com a realidade dos leitores, captam a sua atenção e promovem a identificação já nas primeiras linhas dos contos. Na ruptura dessa proposição de realidade e na naturalização da absorção do insólito surge o desconcerto, como efeito particular desse fantástico cortazariano.

Utilizando-se de análises de contos de Julio Cortázar, o estudioso Jaime Alazraki propôs o termo neofantástico, assinalando os aspectos que marcam uma formulação narrativa fantástica diferente dos modelos construídos no século XIX. Para o crítico, em contos de Cortázar, não surgem as estratégias do fantástico de viés tradicional, que associado à ruptura de uma ordem inquebrantável, procuram produzir medo ou horror. O conceito de “metáforas epistemológicas”, desenvolvidos no âmbito do neofantástico, busca compreender uma produção narrativa que instrumentaliza as imagens insólitas a fim de propor uma nova abordagem da compreensão do mundo racionalista, em uma visão pautada pela ambiguidade e pela indeterminação. Dessa maneira, nesse novo fantástico, se anula a contradição entre os mundos em contato, a transgressão passa a formar parte de uma nova ordem, capaz de revelar os sentidos dos dramas humanos, que a percepção racional nem sempre consegue desvendar.

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

ALAZRAKI, Jaime. Imaginación y historia en Julio Cortázar. In: ALAZRAKI, Jaime. Hacia Cortázar: aproximaciones a su obra. Barcelona: Anthropos, p. 299-322, 1994.
ALAZRAKI, Jaime. Qué es lo neofantastico?. In: ROAS, David (Org). Teorías de lo fantástico. Madrid: Arco Libros, 2001.
ARRIGUCCI Jr., Davi. O Escorpião Encalacrado. A poética da destruição em Julio Cortázar. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
VIÑAS, David. De Sarmiento a Cortázar. Buenos Aires: Ediciones Siglo Veinte, 1972.
YURKIEVICH, Saúl. Julio Cortázar: mundos y modos. Buenos Aires: Edhasa, 2004.