J.R.R. TOLKIEN – ficcionista

Cristina Casagrande 

Considerado o grande expoente da literatura de fantasia moderna, John Ronald Reuel Tolkien nasceu em 1892, na cidade de Bloemfontein, atualmente em território sul-africano. Na época, a cidade era capital do Estado Livre de Orange, hoje extinto, fundado por descendentes calvinistas holandeses, alemães e dinamarqueses chamados bôeres. Por se mudar para a Inglaterra ainda bem pequeno, aos três anos, perdeu sua nacionalidade de acordo com leis próprias do Estado Livre de Orange, tornando-se cidadão inglês, como eram seus pais e demais familiares.

Seu pai, Arthur Tolkien, mudou-se para Bloemfontein com a família para trabalhar como bancário no Bank of Africa, mas Ronald e seu irmão Hilary, dois anos mais novo, não se adaptaram ao clima local. Por isso, em 1895, a mãe deles, Mabel Tolkien, decidiu voltar com as crianças para a Inglaterra. Arthur Tolkien permaneceu devido ao trabalho, mas o plano era também partir mais tarde. Contudo, logo depois, em 1896, faleceu de febre reumática em Bloemfontein antes de reencontrar a família. Da mãe, Ronald herdou não só a aparência, mas o apreço pelas línguas e pela literatura, além de uma profunda religiosidade. Quando ele tinha oito anos, Mabel foi recebida na Igreja Católica, a contragosto de seus parentes, todos protestantes, de distintas igrejas luteranas e a anglicana. Sem o apoio da família, Mabel foi acolhida no Oratório de Birmigham, onde conheceu o padre Francis Morgan, que fora pupilo do Cardeal John Henry Newman, nome importante na história da Igreja da Inglaterra e na formação do pensamento de Tolkien no que diz respeito à religiosidade.

Em 1904, Mabel faleceu por causa da diabetes, e os irmãos Tolkien ficaram sob a guarda do padre Francis Morgan. Quatro anos depois, quando Ronald tinha 16 anos, os meninos se mudaram para o lar dos Faulkner, ainda tutorados pelo padre Morgan. Lá, Ronald conheceu a jovem também órfã Edith Bratt, três anos mais velha, por quem se apaixonou. Preocupado com sua formação, tão cara à falecida mãe Mabel, o padre Morgan resolveu proibir o romance dos dois até que Ronald completasse 21 anos. Nesse ínterim, o rapaz mergulhou nos estudos, na espera de reencontrar sua amada, que havia se mudado dali. Na King Edward’s School, o jovem órfão formou um grupo que se dedicava a discutir temas como literatura e mitologia. Ele chamava-se T.C.B.S. (Tea Club, Barrovian Society), e era formado por Tolkien e mais três amigos: Christopher Wiseman, Robert Q. Gilson e Geoffrey B. Smith.

Em 1911, Tolkien ingressou na Universidade de Oxford, a princípio para estudar Clássicos, mas, dois anos depois, passou estudar língua e literatura inglesa. Foi na universidade que Tolkien desenvolveu seu interesse pelos estudos de Filologia, graduando-se em 1915. Em março de 1916, Tolkien finalmente se casou com Edith, três anos depois de reencontrá-la e convencê-la a terminar um noivado. Em junho do mesmo ano, foi convocado para lutar na França, na sangrenta Batalha do Somme, na Primeira Guerra Mundial. Dois de seus três melhores amigos da T.C.B.S. foram mortos nessa batalha: Robert Gilson no primeiro dia e, mais tarde, Geoffrey Smith. Tolkien adoecera na batalha, acometido por uma pirexia conhecida como “febre nas trincheiras”, então ele foi enviado de volta à Inglaterra e, durante o período no hospital, começou a escrever sua mitologia. Deu a seus escritos o nome de The Book of the Lost Tales, que hoje compõe O Silmarillion, obra póstuma sua editada por seu filho Christopher Tolkien em 1977.

Com Edith, Tolkien teve quatro filhos: John (1917–2003), que foi padre da Igreja Católica; Michael (1920–1984), pai de três filhos; Christopher (1924–2020), casado duas vezes e pai de três filhos, e responsável pelo espólio literário do autor, e Priscilla (1929), a caçula, solteira e sem filhos. Os filhos sempre foram fontes de inspiração para composição literária de Tolkien, a exemplo do livro Roverandom, inspirado no cãozinho de brinquedo de seu filho Michael, ou o personagem Tom Bombadil, inspirado em um boneco holandês também de Michael.

De 1925 a 1959, foi professor da Universidade de Oxford, a princípio como professor de anglo-saxão no Pembroke College, e depois assumindo a cátedra de língua e literatura inglesa no Merton College. Na universidade, ele conheceu o filósofo e escritor C.S. Lewis, com quem travou uma forte amizade, esmorecida nos últimos anos. Com Lewis e outros amigos, tais como Owen Barfield, Charles Williams, Hugo Dyson e outros escritores, filósofos e poetas, Tolkien formou Os Inklings, um grupo de discussões literárias e assuntos correlatos.

Em 1937, Tolkien lançou seu primeiro livro de ficção, O Hobbit, que começou a escrever no início da década para divertir os filhos. Com o sucesso de vendas do livro, a sua então editora Allen&Unwin encomendou “um novo hobbit”, que acabou culminando no lançamento de sua obra mais notável, O Senhor dos Anéis, lançado em três volumes devido à crise no pós-guerra e o alto preço do papel: A Sociedade do Anel em julho de 1954, As Duas Torres em novembro de 1954, e O Retorno do Rei em outubro de 1955. Além de O Senhor dos Anéis, Tolkien publicou o conto Folha de Cisco em 1945; Mestre Gil de Ham em 1949; a coletânea de poemas As Aventuras de Bombadil em 1962; e Ferreiro de Bosque Grande em 1967.

Além dessas obras publicadas em vida, existe uma série de obras póstumas, a maior parte editada por Christopher Tolkien, como Contos Inacabados (1980); os doze volumes da série The History of Middle-earth [A História da Terra-média] (1983–1996); Os Filhos de Húrin em 2007;  A Lenda de Sigurd e Gudrún em 2009; A Queda de Arthur em 2013; Beren e Lúthien em 2017 e A Queda de Gondolin em 2018. Outros livros póstumos também foram lançados, como os infantis Mr. Bliss, em 1982; Roverandom, editado por Christina Scull e Wayne Hammond em 1998; Cartas do Papai Noel, editadas pela nora do autor, Baillie Tolkien, em 1976 e A História de Kullervo, editada por Verlyn Flieger e lançada em livro em 2010.

Tolkien fez a sua carreira universitária como filólogo, publicando alguns ensaios importantes na área como Beowulf: the Monsters and the Critcs (1937) e Ancrene Wisse and Hali Meiðhad (1929). Ele também preparou, com E.V. Gordon, uma edição do poema em inglês médio Sir Gawain and the Green Knight, além de traduzi-lo. Também traduziu os poemas Pearl e Sir Orfeo, além de ter escrito diversos outros trabalhos nas áreas de filologia e tradução.

Sobre a arte da fantasia literária, Tolkien escreveu apenas o ensaio Sobre Estórias de Fadas, publicado em 1947. O texto nasceu como uma palestra em 1939 e só depois foi publicado. Nesse ensaio, Tolkien procura definir as estórias de fadas, dissertar sobre a sua origem e suas funções. Quanto à sua definição, o autor vai encontrar numa citação do século XIV do poeta John Gower, que o termo faëire se refere, na verdade, a um lugar e não a um ser fantástico. Quanto às origens, o autor vai se ater principalmente mais à questão da invenção, cunhando o termo “subcriação”, em que o inventor das estórias de fadas seria um descobridor de um mundo imaginário, a semelhança do Criador do universo, que compreende tanto o Mundo Primário (realidade concreta), como o Mundo Secundário (imaginário).

Para o autor, as estórias de fadas oferecem fantasia, recuperação, escape e consolação. A fantasia se dá especialmente pela linguagem; a recuperação corresponde a enxergar o mundo com olhar de novidade, desprendido dos vícios da modernidade; o escape corresponde não a um escapismo da realidade concreta (Mundo Primário), mas a um escape do racionalismo exacerbado que não dá margem à imaginação; por fim, a consolação, que conta com a presença da esperança no final das estórias, chamada por Tolkien de eucatástrofe:  ao contrário da tragédia, existe uma virada repentina em favor de um final feliz, embora não isento de problemas e consequências da dor.

Tolkien morreu em 1973, dois anos após a morte de Edith. Na lápide da esposa, Tolkien a chamou de “Lúthien”, nome dado a uma das elfas mais importantes de seu legendário. Em ocasião de seu sepultamento, seus filhos colocaram na lápide do pai, a mesma de Edith, o nome “Beren”, nome do mortal que se apaixonou por Lúthien. Sua obra é uma das mais lidas e traduzidas em todo o mundo, figurando no topo da lista de muitos rankings. Estudiosos o chamam de pai da fantasia moderna, servindo de referência a autores como J.K. Rowling, George R.R. Martin e Neil Gaiman.


BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

CARPENTER, H. J.R.R. Tolkien: uma biografia. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2018.
HAMMOND, Wayne G.; SCULL, Christina. The J.R.R. Tolkien Companion & Guide: Reader’s Guide. London: HarperCollins, 2006.