PASSION OF NEW EVE (THE), literatura – Angela Carter

Cleide Antonia Rapucci

Em entrevista a Lorna Sage (1977), Carter afirma ter escrito The Infernal Desire Machines of Dr. Hoffman (1972) e The Passion of New Eve (1977) dentro de um projeto de três romances especulativos. Essa vertente acompanhou a obra da autora desde cedo. O’Day (1994) chama a atenção para o fato de que, entremeadas à “trilogia de Bristol”, já estavam as obras especulativas iniciais da autora: The Magic Toyshop e Heroes and Villains. A nosso ver, Hoffman e New Eve representam, portanto, o auge da tendência especulativa na ficção de Carter.

Em The Passion of New Eve, Evelyn, o narrador, é um professor inglês sádico e narcisista que tem uma verdadeira obsessão por Tristessa, uma atriz dramática do passado. No início da narrativa, ele está de partida para os Estados Unidos, onde conhece Leilah, uma moça negra que ganha a vida como dançarina. Os dois têm um relacionamento, mas quando ele descobre que ela está grávida, a obriga a abortar para poder se livrar dela e seguir viagem pelo país.

Evelyn decide ir para o deserto, onde, sem gasolina, é capturado por uma das Mulheres de um exército, que o leva até a cidade subterrânea denominada Beulah, onde vivem sob o comando de uma mulher que se intitula a Mãe do matriarcado. Mãe transforma Evelyn em mulher, através de cirurgia, fazendo com que se torne Eve/Eva e sofra uma espécie de lavagem cerebral cultural, em que lhe são mostradas imagens em vídeo, “destinadas a ajudá-la a se adaptar à nova forma” (Carter, 1987, p. 49). Ao sofrer a cirurgia, Evelyn tem de empreender uma descida: “era como viajar nos labirintos do ouvido interno; não, essa exploração era mais profunda” (Carter, 1987, p.55).

A Mãe acredita ter criado a mulher autossuficiente (Eva seria fecundada com o próprio esperma de Evelyn). Eva, porém, escapa desse projeto, apavorada com a ideia da maternidade. O desespero lhe dá coragem e ela foge para o deserto, onde é capturada por Zero, que mantém um harém de escravas, e se torna sua “oitava esposa”, após ser estuprada em duas ocasiões.

Zero odeia Tristessa, pois atribui a ela a perda de sua fertilidade, quando assistia à Emma Bovary interpretada por ela. Um dia, anuncia que encontrou a casa de Tristessa. A casa é feita de vidro e aço e Zero e seu harém passam a destruí-la. Acabam encontrando Tristessa e descobrem que guarda um segredo: seu sexo masculino. Zero faz com que Tristessa e Eva encenem um casamento no qual Tristessa deve se vestir como a noiva e Eva como o noivo. Zero também obriga que elas tenham relação sexual para encenar a noite de núpcias. Por fim, as duas conseguem fugir.

O motor do helicóptero para e as duas pousam no deserto. Há então uma longa cena de intimidade e diálogo entre elas, momento raro nos romances carterianos, que não víamos desde Heroes and Villains. As duas são capturadas por soldados que não tinham mais que treze anos e um oficial mata Tristessa. Enterram-na na areia e partem, levando Eva, que achavam ser uma vítima. Ela consegue fugir e é encontrada por Leilah, que diz que a levará até a Mãe. Leilah revela que, na verdade, é Lilith.

Chegam a uma praia onde há uma velha solitária e louca. Lilith leva Eva até uma fissura num rochedo, para onde ela desliza (sua segunda descida). Ela vai encontrando diversos objetos, à medida que as passagens se tornam mais baixas e as cavernas, menores. A rocha amolece; torna-se o próprio útero.

Eva é expelida pelas paredes de carne. Chega novamente à praia, onde está Lilith, que tem certeza que Eva está grávida. Lilith dá a Eva um saco de dormir, lençóis, ração militar, uma vasilha para água, pistola e munição. Lilith parte. Eva reencontra a velha, que a deixa partir em seu barco, em troca de um colar. A velha lhe diz: “commit yourself and your little passenger to the sea” (Carter, 1982 p.190).

O romance termina com a imagem do oceano e do nascimento: “Ocean, ocean, mother of mysteries, bear me to the place of birth” (Carter, 1982, p.191). A Nova Eva, portanto, ainda está por nascer.

Existem, nesse romance, “símbolos patriarcais da feminilidade em três diferentes níveis”, na acepção de Schmidt (1989), ou “três exemplos diferentes da construção da feminilidade”, conforme Palmer (1989).

Essas três personagens femininas centrais são Tristessa, Leilah e Eve. Para Sage (1994), Tristessa é o centro de tudo. Ela é o objeto da paixão de Evelyn, e representa a idéia do feminino enquanto sofrimento. Ela simbolizaria a dissolução romântica e a necrofilia encarnada. Como atriz dramática, Tristessa tem o sofrimento como especialidade e vocação. Assim, ela é a Bela Adormecida que, em seu palácio de vidro, está à espera da revelação de sua verdadeira identidade. É também aquela a quem, nesse romance, o vestido de noiva é imposto, motivo frequente nas obras de Angela Carter. Tristessa é o exemplo da passividade, do masoquismo sobre o qual o patriarcado se estabelece.

Leilah é Lilith, a encarnação da mulher tentadora, fatal. Mas, como afirma Palmer (1989), ela se revela uma lutadora feminista, com qualidades de liderança (independência e capacidade para ação e agressão). Ela é a causa da transformação de Evelyn em Eve. Aqui Lilith faz nascer a nova Eva. É significativo que a ação se passe no deserto, o território de Lilith. Somente quando Evelyn se entrega ao deserto, identificando-se com ele (“I have found a landscape that matches the landscape of my heart”, Carter, p.41), cortando todos os laços com a civilização, é que está pronto para se tornar Eve. Leilah/Lilith é aquela que não se deixa aprisionar; não é abatida nem sujeitada. Ela apenas usava um disfarce como prostituta.

Leilah é, portanto, o oposto de Tristessa. É consciente de seu simbolismo; representa a regeneração e a permanência. Não pode ser dominada. Por sua vivência no deserto, Lilith sabe viver na solidão e tira daí sabedoria. Leilah / Lilith representa aqui o dinamismo, a força que faz surgir Eve.

Já a criação de Eve/Eva lembra o Franskenstein de Mary Shelley, como também o mito de Tiresias, que vive como homem e mulher. O aprendizado de Eva junto a Zero é o pior que lhe poderia ter sido imposto. Palmer (1989) lembra que sua metamorfose segue duas etapas: a cirurgia transforma Evelyn biologicamente, enquanto o que o torna realmente feminino é a subsequente inculcação dos atributos de dependência, passividade, masoquismo e o desejo de nutrição que são esperados nas mulheres (p.19). Se a primeira descida (a cirurgia) de Eva levara à sua criação e paixão, a segunda leva ao (re)nascimento. É na segunda que o tempo volta atrás e dá lugar ao espaço feminino. Indo em direção ao “local de nascimento”, Eva poderá ser, finalmente, uma nova Eva.

REFERÊNCIAS:

CARTER, A. A paixão da nova Eva. Tradução de Eliana Sabino. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.
CARTER, A. The Passion of New Eve. London: Virago, 1982.
O’DAY, M. ‘Mutability is Having a Field Day’: the Sixties Aura of Angela Carter’s Bristol Trilogy. In: SAGE, L. (Ed.) Flesh and the Mirror: Essays on the Art of Angela Carter. London: Virago, 1994. p.24-59.
PALMER, P. Contemporary Women’s Fiction: Narrative Practice and Feminist Theory.
New York: Harvester Wheatsheaf, 1989.
SAGE, L. Angela Carter. Plymouth: Northcote House, The British Council, 1994 (Writers and their Work).
SAGE, L. The savage sideshow: a profile of Angela Carter. New Review 39/40, p.51-57, 1977.
SCHMIDT, R. The Journey of the Subject in Angela Carter’s Fiction. Textual Practice, 3:1, p.56-75, Spring 1989.

Bibliografia complementar:

CALDEIRA, C. D. S. A construção do feminino no romance The Passion of New Eve, de Angela Carter. 2021. 131 f. (Mestrado Acadêmico em Letras). – Universidade Estadual Paulista (Unesp), Faculdade de Ciências e Letras, Campus de Assis, 2021.
RAPUCCI, C. A. “A ficção especulativa carteriana: observações sobre A Paixão da
Nova Eva”. In: GARCÍA, F.; GAMA-KHALIL, M. M. (org.). Vertentes do Insólito
Ficional
– Ensaios I. Dialogarts Publicações: Rio de Janeiro, 2015. p. 71-87.