Dra. Katia Isidoro de Oliveira
Nights at the Circus, publicado no Brasil como Noites no Circo, é o oitavo romance da autora Angela Carter. Foi publicado pela primeira vez em 1984. A protagonista Sophia é Fevvers, trapezista de um circo, virgem e prostituta. A narrativa inicia-se com a entrevista concedida por Fevvers ao jovem jornalista Walser que desejava apenas descobrir se a protagonista era real ou ficção. Na primeira parte da narrativa, Fevvers relata a sua vida até se tornar parte do circo. A protagonista passou por uma casa de prostitutas, uma casa de exibições e a casa da Madame Schreck. Walser acompanha o circo do Coronel Kearney tornando-se palhaço. A partir desse momento, temos o deslocamento do romance de Londres para São Petersburgo/Sibéria e os subterrâneos de Londres durante o processo de modernização no final do século XIX.
O romance nos apresenta o mundo circense, os artistas, o espetáculo. O trem em que a comitiva do circo viajava sofre um acidente. Fevvers e Walser separam-se nesse momento. Porém, a virada do século XIX para o XX reencontra Walser pronto para ser o homem de Fevvers que representa a mulher da nova era. Nesse contexto, o realismo mágico presente na obra discute questões como o processo de modernização, o amor, a perspectiva dos marginalizados, as relações humanas e a liberdade feminina.
Em Noites no Circo, ocorreu a liberação, uma mudança pessoal e social. A perspectiva feminina é modificada, uma protagonista que foi gestada em um ovo, que simbolicamente representa a liberação e o renascimento é uma mulher com asas.
Para colaborar com o efeito de libertação, a autora livra-se de ambientes fechados que faziam parte do cenário de seus romances e opta pelo espaço exterior. E ainda opta pela protagonista Fevvers, que em si carrega uma poderosa imagem de liberação e transformação feminina. A protagonista tem consciência do que representa: “I only knew my body was the abode of limitless freedom” (Carter, 1993, p.41). A personagem Ma Nelson profetiza ao ver as asas de Fevvers: “’I think you must be the pure child of the century that just now is waiting in the wings, the New Age in which no women will be bound down to the ground’” (Carter, 1993, p. 25).
A autora cria sua interpretação do mundo através de um espaço onde os sujeitos “ex-cêntricos”, como a mulher, o negro, o nativo, o estrangeiro, ou seja, as minorias estão presentes. O espaço principal escolhido por Carter é o circo; aquele que aceita os excluídos socialmente, os “ex-cêntricos”. Hutcheon afirma em seu livro Teoria e Política da Ironia:
O circo com vários picadeiros passa a ser a metáfora pluralizada e paradoxal para um mundo descentralizado onde só existe ex-centricidade. Noites no circo, de Angela Carter, combina com essa estrutura de circo anômalo contestações à centralização narrativa: amplia a faixa fronteira entre imaginário (com sua protagonista, uma mulher alada) e o realismo/histórico, entre uma trama unificada e biograficamente estruturada e uma narração descentralizada, com seu ponto de vista oscilante e longas digressões. (Hutcheon, 1991, p.88)
Temos, portanto, romance que abandona os ambientes fechados e questiona o poder da ilusão, principalmente na personagem Fevvers. A principal característica de Angela Carter é mantida: as personagens femininas se opõem às masculinas. O primeiro apontamento da perspectiva do marginalizado é a origem de Fevvers: ela é uma cockney, habitante do bairro mais pobre de Londres, que também possui um dialeto. Nada mais excludente que um “gueto” com dialeto. O romance é focado na paródia, no grotesco e carnavalesco.
O fato de Fevvers ser um pássaro em uma gaiola dourada, um objeto do prazer alheio, é uma metáfora para a realidade das mulheres. É destacado o jornalista Walser que, no início, desconfia das asas da protagonista para tornar-se palhaço no final da obra e na transformação por Fevvers que desejava um homem que não a destruísse. O realismo mágico presente na obra é encontrado na fé, no desejo de Walser em acreditar nessa realidade circense mágica.
A autora afirmou que Noites no Circo está centrado na tradição oral europeia e o romance consegue unir o sério e o cômico em um único parágrafo, por exemplo, nas apresentações; move Fevvers entre a imaginação de um observador e a reação diante daqueles que a observam:
Look at me! With a grand, proud, ironic grace, she exhibited herself before the eyes of the audience as if she were a marvelous present too good to be played with. Look, not touch.
LOOK AT ME!
She rose up tiptoe and slowly twirled round, giving the spectators a comprehensive view of her back: seeing is believing. Then she spread out her superb, heavy arms in a backwards gesture of benediction and, as she did so, her wings spread, too, a polychromatic unfolding fully six feet across, spread of an eagle, a condor, an albatross fed to excess on the same diet that makes flamingos pink. (CARTER, 1993, p.15)
Por meio da perspectiva centrada na mulher, Angela Carter desafia a cultura dominante masculina. A narrativa pôde alçar voos antes não alcançados por personagens femininas nos romances, libertar-se do controle patriarcal. E as asas libertaram Fevers em uma nova era.
REFERÊNCIAS:
CARTER, A. Noites no Circo. Tradução por Claudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: Rocco: 1991.
__, A. Heroes and Villains. London: Penguin, 1981.
HUTCHEON, L. Teoria e política da ironia. Tradução por Julio Jeha. Belo Horizonte: UFMG, 1991.