FANTASISMO

Bruno Anselmi Matangrano

Fantasismo é uma proposta de denominação para o movimento contemporâneo de produção e circulação de uma literatura brasileira assumidamente fantástica, algo que vem se dando desde o início do século XXI. A terminologia, que aqui se ressalta principalmente a partir da obra Fantástico Brasileiro: o insólito literário do romantismo ao fantasismo (Arte & Letra, 2018), fruto de extensa pesquisa dos professores doutores Bruno Anselmi Matangrano e Enéias Tavares, vinha sendo apresentada em contextos acadêmicos e já havia sido citada em ao menos duas publicações antes dela (Czester, 2017; Souza, 2017). Na referida obra, os professores postulam que “o termo ‘fantasismo’ como designativo do fenômeno literário contemporâneo, tanto se explica pela proliferação de obras de fato relacionadas à fantasia, quanto pela abrangência do próprio conceito”, pois, “devido a suas inúmeras subcategorias, pode se aproximar de diversos outros modos narrativos” (Matangrano; Tavares, 2018, p. 263), como a ficção científica, o terror, o realismo maravilhoso etc.

Desde então, Fantasismo tem reverberado em diversos estudos que tomam o insólito na literatura brasileira como foco de pesquisa (como pode ser visto na bibliografia complementar) quando o recorte temporal é o do século atual. Importante retomar, aqui, para garantir exata compreensão, o que Garcia (2012, p. 14-15) entende sobre o insólito, que subjaz à compreensão do conceito maior de que se fala, como “uma categoria ficcional comum a variados gêneros literários, sendo, desse modo, um aspecto intrínseco às estratégias de construção narrativa […] um tipo de arquiestrutura sistêmica, em oposição ao sistema real-naturalista”. Investigações sobre o insólito já vinham mobilizando grupos em diversas universidades do Brasil e a proposição do Fantasismo ganha força exatamente a partir da existência do interesse acadêmico crescente pela literatura fantástica.

Entretanto, essencial e principalmente, a nomenclatura Fantasismo se refere não apenas a um grupo de títulos de ficção insólita escritos e publicados por brasileiros nos últimos vinte e alguns anos, escritos a partir de uma autoconsciência e uma vontade de se declararem fantásticos, ou seja, a partir de uma intenção clara de pertencimento a uma categoria narrativa que por tanto tempo foi marginalizada, mas também engloba um conjunto de manifestações no que diz respeito à recepção e à crítica dessas narrativas, bem como ao tratamento editorial especializado. Como o mesmo professor Garcia (2018, p. 14) explica em prefácio do livro de Matangrano e Tavares, quando estes aplicam “movimento” para designar Fantasismo é para se aproximar de uma classificação de tradição mais ortodoxa, uma vez que ele se verifica, em vista do conjunto, como uma tendência artística, crítica e mercadológica. Busca destacar, assim, uma coleção cada vez maior de autores e obras que embora passem longe de ser os pioneiros do fantástico na literatura brasileira, encontram suporte em uma expressiva comunidade de leitores, uma crescente de pesquisadores, e um filão editorial em consequência delas para se assumirem como representantes orgulhosos dos gêneros que esse modo de narrar abarca.

Logo, o Fantasismo se trata de uma interpretação crítica de um conjunto de fatos que levaram a compreender que há uma diferença importante entre como a literatura fantástica brasileira era tratada até certo tempo atrás pelas diversas instâncias legitimadoras – seu próprios autores e leitores, bem como as editoras e a academia – e como ela é encarada atualmente (Rosa Junior, 2024). Torna-se possível afirmar a partir desses fatos que aos poucos vem se conseguindo quebrar com a perspectiva tradicional de que as narrativas do insólito produzidas em terras brasileiras não teriam o mesmo apelo daquelas importadas; e, numa camada ainda mais profunda, que existe valor estético-artístico no trabalho com a palavra que toma o insólito ficcional como ponto central, sem rodeios, tanto quanto naquele que toma o real-naturalismo. Afinal, desde o Romantismo histórias fantásticas têm sido contadas em nossa literatura, muito embora nunca antes tenham sido explicitamente encaradas assim. A diferença, portanto, está na intenção dessa produção, na qual subjaz uma ideologia clara de defesa de um ideal comum de “literatura fantástica” (entendida aqui em seu sentido mais abrangente), como no passado aconteceu em relações a outros movimentos literários e artísticos que, nem sempre tendo fatores estéticos claros e pré-determinados que os unissem – como é o caso do modernismo –, agrupavam-se em torno da defesa de determinados valores e posturas.

O marco inicial do fenômeno – ou, ao menos, o começo da mudança de paradigma na percepção do insólito na literatura brasileira – parece ter sido a publicação do romance Os Sete, de André Vianco, ocorrida entre 1999 e 2000 (Matangrano; Tavares, 2018). Foi quando o referido autor provou às editoras que estavam enganadas ao lhe dizer que não haveria público leitor para uma história de vampiros em terras brasileiras, pois a tiragem de mil exemplares da obra financiada pelo seu próprio bolso se esgotou rapidamente. Dessa forma chamou a atenção da editora Novo Século, que notando a recepção do romance decidiu lançar o título a nível nacional. Hoje, mais de vinte anos depois e com muito mais de um milhão de exemplares vendidos de todos os seus livros, Vianco aparece lembrado como precursor, como impulsor do movimento que tomou forma nos anos seguintes.

Assim, se mais ou menos na mesma época os fenômenos Harry Potter, da britânica J. K. Rowling, e O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, impulsionados por suas adaptações cinematográficas, abriram espaço em nosso país para publicações de autores menos conhecidos que também produziram literatura fantástica em língua inglesa, a obra de Vianco parece, da mesma forma, ter sido um ponto de virada no mercado editorial brasileiro no que diz respeito à produção nacional. Ao perceber o sucesso dos vampiros de Vianco, diversas editoras adotaram uma postura mais aberta à recepção de originais nacionais cujo argumento estivesse em torno das manifestações do insólito e vieram à luz, por exemplo, A Batalha do Apocalipse (2010), de Eduardo Spohr, Dragões de Éter (2011), de Raphael Draccon, e A Fada (2012), de Carolina Munhoz, de certa forma considerados também marcos do movimento fantasista.

Progressivamente, então, passamos a ver títulos de literatura fantástica assinados por nomes brasileiros nas estantes das livrarias, das prateleiras mais específicas, nos primeiros tempos, às vitrines junto com best-sellers internacionais nos últimos tempos. Efervescente como estava o mercado para as obras insólitas, em um primeiro momento editoras de grande porte abriram selos especificamente voltados para a publicação de obras de literatura fantástica (novamente, vista em seu sentido lato), em que autores nacionais foram acolhidos também. Pode-se citar a criação da Fantástica Rocco (Editora Rocco) e da Fantasy (Casa da Palavra), por exemplo, mas que não tiveram vida longa. Atualmente ambas editoras publicam em seus selos principais os títulos fantásticos brasileiros e internacionais, em pé de igualdade. No mesmo sentido o fazem a Galera Record, a Suma de Letras e a Gutenberg, todos criados mais ou menos na mesma época, para citar apenas exemplos vindos dos maiores grupos editoriais do país.

Sendo possível apontar aqueles que primeiro se assumiram como escritores de literatura fantástica em nosso país, no que diz respeito a seus sucessores, eles vêm surgindo aos montes, também impulsionados por novas editoras que têm a proposta de publicar, principalmente, títulos que explorem as vertentes do insólito, como a AVEC, a Draco, a Nacional (NACI), a Grifo, a Jambô, dentre outras, sem contar pequenas editoras pioneiras que hoje já não estão mais em funcionamento, como Tarja Editorial, Giz Editorial, Argonautas etc.. Essa abertura do mercado para o que diz respeito ao insólito brasileiro coincidiu com a popularização do formato epub – cuja principal plataforma de comercialização permite utilizá-lo para publicações independentes –, provocando um crescente tão significativo de títulos lançados de 2015 até agora, que a partir da segunda década do novo milênio a produção fantasista parece passar para uma nova fase, muito prolífica, desenhando uma curva de ascensão constante e que não dá sinais de arrefecimento.

Os novos escritores que começam a figurar nas estantes físicas e virtuais passam, então, a explorar cada vez mais os espaços e as temáticas do nosso país, a nossa história e a nossa própria cultura, utilizando-os como matéria para suas criações, como na fantasia urbana Porém Bruxa (2019), de Carol Chiovatto, em que temos uma bruxa vivendo uma aventura de agente secreta na grande São Paulo; o thriller sobrenatural Deuses Caídos (2018), de Gabriel Tennyson, que utiliza o Rio de Janeiro como cenário para um quase apocalipse; A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison (2014), de Enéias Tavares, que narra uma aventura steampunk com inspiração nos clássicos da literatura nacional; a ficção científica Terra Verde (2018), de Roberto Souza Cauzo, que coloca aliens na floresta amazônica; a ficção folclórica O Auto da Maga Josefa (2021), de Paola Siviero, em que desfilam diversos monstros cujas histórias vêm de nossa cultura popular; a space opera afrofuturista A vida e as mortes de Severino Olho de Dendê (2022), de Ian Fraser, que constrói uma galáxia cheia de influências das culturas afrobrasileiras o thriller gótico de horror no Brasil colonial A noite do cordeiro (2023), de Daniel Gruber; apenas para citar alguns dos títulos que vieram à luz na quase década e meia posterior a dos autores e obras já citadas.

Além disso, vale destacar a diversidade presente nas tramas da maioria dessas obras, retratando perfis que por muito tempo foram negligenciados na literatura brasileira, insólita ou mimética. Torna-se comum encontrar como protagonistas personagens lésbicas e bissexuais, como em Luzes do Norte e Sombras do Sul (2022), de Giu Domingues; gays e bissexuais, como em O cemitério de gigantes (2023), de Malu Costacurta; Visão Noturna (2023), de Franklin Teixeira; e Exorcismos, amores e uma dose de blues (2014), de Eric Novello; pretas e pretos, como em O céu entre mundos (2021), de Sandra Menezes, e O último ancestral (2021), de Ale Santos; e indígenas, como em A sombra dos homens (2004), de Roberto de Sousa Causo, e Araruama (2014), de Ian Fraser. Tal mudança no perfil das personagens parece, pois, uma particularidade da literatura fantasista, que contradiz o perfil tradicional do dito “romance brasileiro contemporâneo”, conforme denunciado no estudo de Regina Dalcastagnè publicado em 2012.

Nesse sentido, parece possível afirmar que “o insólito ficcional vive um momento de amadurecimento na cena literária brasileira, pautado pela tolerância e pela vontade de se retratar o próximo pela beleza de suas especificidades e singularidades” (Matangrano; Tavares, 2018, p. 133). Da mesma forma, considerando a demonstrada variedade de títulos a que os gêneros do insólito vêm dando corpo na literatura brasileira, o que Fantasismo vem aguçando nossas sensibilidades para compreender que não só o nosso contexto cultural aceita muito bem a presença de elementos fantásticos em suas narrativas, que já estávamos mais acostumados a ver nas histórias importadas, como ele mesmo sempre carregou elementos fantásticos em sua constituição que podem servir para contar histórias tão potentes quanto aquelas. Como bem Matangrano e Tavares (2018, p. 133) averiguam, “posto que derivada de toda uma tradição de dois séculos, surgida na Europa, e de todo um conjunto de mitos e folclores ocidentais”, a literatura fantástica produzida no Fantasismo “é também particular e nacional, através da forma antropofágica com que é representada em nossas letras, de modo a lhe conferir cor local, unicidade e características inéditas até aqui”.

BIBLIOGRAFIA CITADA

CZEKSTER, Gustavo Melo. “Escrever literatura fantástica no Brasil do Século XXI”. In: TENÓRIO, Patricia Gonçalves. (Org.). Sobre a Escrita Criativa. 1ª ed. Recife: Raio de Sol, 2017, v. 1, p. 138-147.
DALCASTAGNÈ, Regina. Literatura brasileira contemporânea: um território contestado. Rio de Janeiro: Horizonte/UERJ, 2012.
GARCÍA, Flavio. Prefácio. In: MATANGRANO, Bruno Anselmi; TAVARES, Enéias. Fantástico Brasileiro: o insólito literário do romantismo ao fantasismo. 1a ed. Curitiba: Arte & Letra, 2018.
MATANGRANO, Bruno Anselmi; TAVARES, Enéias. Fantástico Brasileiro: o insólito literário do romantismo ao fantasismo. 1a ed. Curitiba: Arte & Letra, 2018.
ROSA JUNIOR, Paulo Ailton Ferreira da. (Re)figurações de Iara: investigando o medo e o fascínio pelas sereias da Antiguidade ao Fantasismo. 2024. 221 f. Tese (Doutorado em Letras) – Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2024.
SOUZA, Kátia Regina. A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil. Porto Alegre: Metamorfose, 2017.

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

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CELESTIO, Ricardo. A paratopia, o niilismo e a metaficção de especulação científica em Aníbal, de Andrea Del Fuego. Caderno de Letras, Pelotas, n. 47, p. 133-147, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.15210/cdl.vi47.26948
CELESTINO, Ricardo. A paratopia, o niilismo e a metaficção em discursos literários da obra Gastaria tudo com pizza, de Pedro Duarte. In: NASCIMENTO, Jarbas Vargas; CANO, Márcio Rogério de Oliveira; ELIAKIM, Jonatas (Orgs.). Paratopia – Discurso e cultura Volume 3. São Paulo: Blucher, 2020.
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