Wise Children (1991), o último romance da escritora inglesa Angela Carter (1940-1992), foi publicado sete anos após Nights at the Circus. Está dividido em cinco capítulos e é narrado por Dora Chance, irmã gêmea de Nora. A narradora, aos setenta e cinco anos, conta episódios da vida das duas, nascidas numa família de atores que sempre representaram Shakespeare.
A estrutura da narrativa não é linear e vai se construindo como um caleidoscópio. Cada capítulo se apresenta de forma independente e os fatos vão sendo elucidados aos poucos: algumas personagens, ou certos detalhes, que são apenas mencionados num capítulo, vão receber explicação bem mais à frente.
Temos, assim, uma narrativa de reminiscências, que traz uma narradora extremamente lúcida, que quer se mostrar confiável ao leitor, na medida em que parece se lembrar de tudo com muita nitidez. Usando citações ou simplesmente apropriando-se do texto de Shakespeare, a narradora usa principalmente as tragédias (embora use também as comédias) para escrever essa sua comédia. A própria definição de tragédia feita pela narradora ao final da narrativa dá a dimensão da abordagem por ela utilizada: “Comedy is tragedy that happens to other people” (Carter, 1993, p. 213).
Edmund White (1991, p. 22), em sua resenha sobre a obra, considera esse o melhor livro de Angela Carter. Joyce Carol Oates (1992, p. 7) vê Dora como a porta-voz da autora e enumera os autores utilizados como “colaboradores” nesse romance, além de Shakespeare: Gabriel García Márquez, Erica Jong, Virginia Woolf, e os contemporâneos Julian Barnes, Fay Weldon e Martin Amis.
A trama reforça o caráter desviante das personagens: Dora e Nora sempre viveram do “lado errado do Tâmisa”, em Brixton, e são filhas ilegítimas de Melchior Hazard, que as rejeita. A mãe delas, “Pretty Kitty”, trabalhava na mesma casa onde hoje moram e que herdaram de Vovó Chance, a patroa da mãe, que as criou, já que a mãe morrera no parto. As duas encontram em Peregrine, irmão gêmeo de Melchior, uma figura paterna. Ele faz com que elas gostem de dançar e paga-lhes aulas de dança
Quando as duas fazem sete anos, a Avó leva-as ao teatro pela primeira vez e mostra-lhes o pai. Com o tempo, a curiosidade que sentiam pelo pai transforma-se “num anseio, num desejo” (Carter, 1993, p.57).
As meninas têm os cabelos cortados e estréiam no teatro como passarinhos em Babes in the Wood. Aos dezessete anos, elas ficam parcialmente reconciliadas com o pai, que as convida a participar com ele da peça What you will. Depois, viajam para Hollywood para filmarem A Midsummer Night’s Dream que, dirigido por Melchior, se torna um fracasso.
As duas quase se casam em Hollywood, mas são “resgatadas” pela avó: “So we went home with Grandma, sadder and wiser girls” (Carter, 1993, p.161). É a época do pós-guerra, a avó morre e começam os dias de declínio, também para suas carreiras. As duas herdam a casa da Avó e também a primeira mulher de Melchior, Lady Atalanta, que elas chamam de “Wheelchair”.
O último capítulo do livro narra a festa do centésimo aniversário de Melchior, cujo convite elas haviam recebido no primeiro capítulo. Toda a enunciação se dá, portanto, no dia 23 de abril, aniversário de Shakespeare, de Melchior e Perry (cem anos) e Dora e Nora (setenta e cinco anos), todos pares shakespearianos.
Elas vão ao quarto da avó procurar alguma roupa antiga, mas acabam saindo para comprar roupas novas e se vestem como meninas: “two funny old girls, paint an inch thick, clothes sixty years too young, stars on their stockings and little wee skirts skimming their buttocks. Parodies” (Carter, 1993, p.197). Duas coisas importantes acontecem nessa festa: o pai finalmente as reconhece como filhas e Dora vai para a cama com Perry; numa cena antológica. Perry diz à Nora que olhe em seus bolsos, e ela tira deles bebês gêmeos: um menino e uma menina. Elas ficam com os bebês. Na cena final, as duas cantam na rua para os bebês, de volta para casa: “What a joy it is to dance and sing!” (Carter, 1993, p. 232).
A dança e a música encerram Wise Children e o carnaval carteriano se completa. Wise Children está repleto de ilegitimidade, pais ausentes, infidelidade, todas as aventuras familiares de tantas pessoas de forma que o romance comporta uma lista de “Dramatis Personae”. Mas o mais importante aqui é a voz de Dora, uma narradora que brinca com o leitor, usando todas as possibilidades da focalização do autor onisciente intruso. Dora é a própria Vasilissa do conto russo favorito de Carter, que aqui parece ter incorporado a boneca que trazia em seu bolso. De tanto se expor ao vento e ao sol, tornou-se velha e sábia, ou assim pode se fazer crer. A idade tornou-a invulnerável, dona da própria voz, do próprio tempo, do próprio espaço.
REFERÊNCIAS
CARTER, A. Wise Children. New York: Penguin, 1993.
OATES, J.C., ‘Comedy is Tragedy that Happens to other People’: Wise Children by Angela Carter. The New York Times Book Review, 19 Jan. 1992, p.7.
WHITE, E., Grand, buffoonish and tender. The Times Literary Supplement, 7 June 1991, p.22.