Dra. Katia Isidoro de Oliveira
O circo com vários picadeiros passa a ser a metáfora pluralizada e paradoxal para um mundo descentralizado onde só existe ex-centricidade. Noites no circo, de Angela Carter, combina com essa estrutura de circo anômalo contestações à centralização narrativa: amplia a faixa fronteira entre imaginário (com sua protagonista, uma mulher alada) e o realismo/histórico, entre uma trama unificada e biograficamente estruturada e uma narração descentralizada, com seu ponto de vista oscilante e longas digressões. (Hutcheon, 1991, p.88)
Temos, portanto, romance que abandona os ambientes fechados e questiona o poder da ilusão, principalmente na personagem Fevvers. A principal característica de Angela Carter é mantida: as personagens femininas se opõem às masculinas. O primeiro apontamento da perspectiva do marginalizado é a origem de Fevvers: ela é uma cockney, habitante do bairro mais pobre de Londres, que também possui um dialeto. Nada mais excludente que um “gueto” com dialeto. O romance é focado na paródia, no grotesco e carnavalesco. O fato de Fevvers ser um pássaro em uma gaiola dourada, um objeto do prazer alheio, é uma metáfora para a realidade das mulheres. É destacado o jornalista Walser que, no início, desconfia das asas da protagonista para tornar-se palhaço no final da obra e na transformação por Fevvers que desejava um homem que não a destruísse. O realismo mágico presente na obra é encontrado na fé, no desejo de Walser em acreditar nessa realidade circense mágica. A autora afirmou que Noites no Circo está centrado na tradição oral europeia e o romance consegue unir o sério e o cômico em um único parágrafo, por exemplo, nas apresentações; move Fevvers entre a imaginação de um observador e a reação diante daqueles que a observam:Look at me! With a grand, proud, ironic grace, she exhibited herself before the eyes of the audience as if she were a marvelous present too good to be played with. Look, not touch. LOOK AT ME! She rose up tiptoe and slowly twirled round, giving the spectators a comprehensive view of her back: seeing is believing. Then she spread out her superb, heavy arms in a backwards gesture of benediction and, as she did so, her wings spread, too, a polychromatic unfolding fully six feet across, spread of an eagle, a condor, an albatross fed to excess on the same diet that makes flamingos pink. (CARTER, 1993, p.15)
Por meio da perspectiva centrada na mulher, Angela Carter desafia a cultura dominante masculina. A narrativa pôde alçar voos antes não alcançados por personagens femininas nos romances, libertar-se do controle patriarcal. E as asas libertaram Fevers em uma nova era. REFERÊNCIAS: CARTER, A. Noites no Circo. Tradução por Claudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: Rocco: 1991. __, A. Heroes and Villains. London: Penguin, 1981. HUTCHEON, L. Teoria e política da ironia. Tradução por Julio Jeha. Belo Horizonte: UFMG, 1991.