ABSURDO

 Deise Quintiliano

Etimologia – Absurdo: do latim absurdus “dissonante”. Composição de surdus “surdo” ─ mas também, “mudo, abafado” ─, acrescido do prefixo intensificativo AB. Palavra usada para expressar, em Latim, o significado Grego contido em “alogos”, “irracional”, onde A remete a “fora” e LOGOS a “palavra, razão”. Substantivo masculino – Aquilo que é falso (por razões lógicas); que infringe as regras, as leis da lógica. Um julgamento, um raciocínio absurdo. Demonstração de uma proposição contraditória conduzindo a uma conclusão falsa → Apagogia (comprovação da veracidade de uma proposição através da demonstração do absurdo da tese contrária).

Filosofia – No plano filosófico, sinteticamente, o questionamento de Thomas Nagel auxilia-nos na compreensão do conceito. No que, de fato, consiste o absurdo da vida? Com efeito, as ações humanas são absurdas porque são agenciadas por angustiados seres finitos que se sabem transitórios num mundo que permanece. Nesse sentido, nada do que acontece presentemente interessará em um milhão de anos. Em contrapartida, pode-se objetar que nada do que ocorrerá em um milhão de anos deveria tampouco afetar o agora. Na vida comum, uma situação é absurda quando inclui uma discrepância óbvia entre uma pretensão infactível e a realidade tangível.

Se uma pessoa se encontra em uma situação absurda, normalmente irá tentar mudá-la, seja posicionando a realidade numa zona de interseção mínima com o comportamento insólito, seja subtraindo-se radicalmente ao desatino irrealizável. A sensação de que a vida como um todo é um absurdo surge quando percebemos, talvez indistintamente, uma aspiração que é inseparável da continuação da vida humana, o que torna o seu absurdo inevitável, a menos que abandonemos a própria vida. “O Absurdo” se refere, outrossim, ao conflito entre a tendência humana de buscar um significado inerente à vida e a inabilidade humana para gerar sentidos, contextos, narrativas e ficções insólitos. Absurdo não significa, portanto, “logicamente impossível”, mas “humanamente impossível”. O universo e a mente humana não produzem separadamente o Absurdo. É antes o Absurdo que se manifesta pela natureza contraditória de ambos existindo simultaneamente.

A origem moderna do conceito – Absurdo associa-se a tudo o que contradiz a razão, a lógica, a doxa encontrando-se em estreita conexão com temas como a ausência, o vazio, o nada e a falta de sentido da vida, isto é, com a angústia, o desespero e o desamparo do homem contemporâneo. Todavia, vivemos cada vez mais sob a égide desse fenômeno, hiperbolizado pela perda de referentes estáveis, numa sociedade pasteurizadora das singularidades, podendo ser observado na mitologia, na filosofia, na literatura, nas belas-artes, nas ciências.

O plano religioso – No século XIX, em Temor e Tremor (2008), o dinamarquês Søren Kierkegaard finca as raízes do “Absurdismo”, ao vincular a prova da crença em Deus num salto cego na fé, isto é, num comprometimento com o absurdo, metaforizado pelo sacrifício de Abraão.

Sacrifício de Isaac (por Abraão), pintado por Rembrandt, 1635, óleo sobre tela, 193 × 133 cm, Museu Ermitage.

A literatura insólita – Momentos fortes traduzem a (i)lógica do absurdo, costurando literatura e filosofia, com pespontos que perfuram o tecido narrativo com uma agulha pontiaguda temperada no insólito ficcional. Enquanto sistema de crença, brota de indagações concernentes à existência. Tais indagações reverberam no método inquisitorial expresso no pessimismo impotente d’ O Processo de Kafka à radicalização do nonsense histórico do pós Segunda Guerra, denunciado no Mito de Sísifo, de Camus. Passeia do expressionismo de Arshile Gorky (1904-1948) ao realismo social da “action painting” de Jackson Pollock (1912-1956). Alimenta-se de visões absurdistas, especialmente das contempladas aforisticamente nos Silogismos da amargura, de Émile Cioran (2011).

Não respeita demarcações de fronteiras históricas, geográficas ou culturais, manifestando-se no suicídio do Kirilov, d’ Os Demônios dosteievskyanos, mas também na “desregulagem de registro” e na carpintaria teatral de Qorpo-Santo (1829-1883). Na obra dramática desse brasileiríssimo mestre do nonsense, o insólito, anda pari passu com o banal e cria um universo tenso, à beira da dissolução absoluta. Tamanha força inovadora se revitalizaria, em definitivo, no teatro do absurdo, na estética surrealista, na pintura concreta, que remetem à consciência científica da pequenez humana. A minudência existencial caminha vacilante sobre os escombros que soçobram da vastidão de um universo dilapidado, instando à propositura de uma nova configuração histórica, estética e ética de um admirável mundo novo, o qual a potência transgressora do absurdo insólito nos vem permitindo engendrar.


REFERÊNCIAS

CAMUS, Albert (2014). O Mito de Sísifo. Inclui estudo sobre Franz Kafka. Ari Roitman e Paulina Watch (Trad.). 5.ed. Rio de Janeiro: BestBolso.
CIORAN, Émile Michel (2011). Silogismos da Amargura. José Thomaz Brum (Trad.). Rio de Janeiro: Rocco
KIERKEGAARD, Soren (2008). Temor e Tremor. Curitiba: Editora Hemus.
NAGEL, Thomas (1971). “O Absurdo”. Publicado originalmente em Journal of Philosophy, 68, p.716–727 e reimpresso no libro Mortal Questions (Cambridge: Cambridge University Press, 1979). p.11–23. In http://dmurcho.com/docs/nagel.pdf. Acesso em 28.jun.2015.